relato

A igreja e os sacos de lixo

 

Fixados com fita adesiva, pedaços de sacos de lixo escuros tampavam na última quinta-feira de manhã um dos portões de entrada sede da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, na rua Lins de Vasconcelos, no Cambuci, em São Paulo.

 

A decoração, montada de improviso na madrugada por um diácono vizinho da igreja, tinha como objetivo impedir a visualização de mensagens escritas por cerca de dez pichadores contra os fundadores da igreja, apóstolo Estevam Hernandes e bispa Sônia Moraes, detidos há dois dias no aeroporto de Miami (EUA) carregando dinheiro não-declarado na bagagem.

 

"Bispa ladra" e "Na Bíblia não se carrega dinheiro" eram algumas das frases pichadas, segundo relato de vizinhos.

 

O boletim de ocorrência foi registrado durante a madrugada no distrito policial do Cambuci, segundo a Polícia Civil.

 

Na igreja, porém, funcionários estavam proibidos de comentar a ação. "É coisa de moleque", limitou-se a dizer o diácono que colocou os plásticos e, mais tarde, ajudou a retirar os dizeres. "Sempre respeitaram a igreja. É a primeira vez que vejo isso", disse ele, que pediu para não ser identificado. Revoltado, ele acusou a imprensa e fiéis de outras igrejas de quererem "tirar uma casquinha" da Renascer. Apesar de se dizer tranqüilo, reconhecia: andava ansioso era com a situação dos líderes. "Ele é nosso pai, e ela, nossa mãe."

 

À tarde, pastora Cida tentava tranqüilizar os fiéis. Pelo telefone, informava que os cultos seguiriam normalmente e que, quem tivesse fé, não deveria temer novas ações. "Já está tudo pintado, lavado, limpinho. Sou Renascer até a morte!", dizia.

 

Na frente da igreja, era possível ouvir pastores e fiéis comentando o assunto. "Isso é só o começo. Devemos estar preparados", dizia um deles.

 

Por meio de sua assessoria, a igreja lamentou o episódio, mas disse considerar a pichação um "fato isolado" e que não há necessidade de reforçar a segurança da igreja. Afirmou ainda não acreditar que a mensagem tenha sido escrita por freqüentadores insatisfeitos. "Em São Paulo, qualquer um pode ser vítima de atos de vandalismo".

 

 



 Escrito por Por Matheus Pichonelli às 18h39
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repercussão

Lula e o veto

 

O veto do presidente Lula a um trecho da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) de 2007 que previa a exigência de licitação para a escolha de ONGs (Organizações Não-Governamentais) que prestam serviços ao poder público provocou análises distintas entre especialistas consultados sobre o assunto.

Para o jurista Ives Gandra Martins, especializado em direito tributário, o governo agiu de forma equivodada. Na análise de Martins, o presidente deveria ter aceito a recomendação da LDO e, por meio de recursos provisórios, como uma MP, determinar um período para as entidades se adaptarem à nova regra. "Para essas entidades receberem dinheiro púbico é necessário passarem pelo processo de licitação. É um princípio moralizador e deveria ter sido tomado há muito mais tempo".

De acordo com o economista Luiz Carlos Merege, idealizador do Centro de Estudos do Terceiro Setor da FGV, o governo deve instituir medidas para tornar transparentes as prestações de contas dessas ONGs.

Para ele, no entanto, a decisão, se fosse tomada agora, ainda seria precipitada. "O governo deveria tomar preços, seria positivo. Mas ainda é preciso discutir melhor esse tema".

Segundo Magnólia Said, diretora-executiva da Abong (Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais), o governo agiu com sensibilidade ao vetar o trecho da LDO.

 

Para ela, a proposta iria apenas burocratizar a relação entre governo e entidades. "Essa burocracia não combina com o perfil das entidades, que agem em questões emergenciais", diz. Segundo a diretoria, as licitações não combateriam um problema maior: as instituições que são constituídas apenas para se beneficiar do erário. Além disso, diz, a licitação não seleciona de acordo com a qualidade do trabalho, mas do preço. "Existem mecanismos lícitos de fiscalização. Passamos por auditorias, colocamos balanço nos sites. Se o governo tem condições de fiscalizar a sociedade, também tem condições de saber se é ludibriado ou não. Só há burla quando se deixa burlar."

Na avaliação do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), integrante da CPI dos Sanguessugas, que sugeriu a medida à LDO, o argumento do governo para vetar a proposta "tem racionalidade". "Devemos conduzir este assunto com um prazo a ser cumprido e com estudo. O governo não se opõe à idéia, apenas disse que seria impossível instituí-la neste momento", disse o deputado, para quem há um cenário no Congresso para que essa discussão com o governo ocorra.



 Escrito por Por Matheus Pichonelli às 18h21
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Relatos

O caso Renascer: freqüentadores se rebelam.

 

Em comunicado divulgado em sua página na internet, a Igreja Renascer em Cristo classificou as notícias publicadas na imprensa na últtima semana, sobre a detenção de seus líderes, em Miami, como "calúnias e denúncias falsas".

O site informou que o apóstolo Estevam Hernandes e a bispa Sônia Haddad Moraes costumam viajar nesta época do ano para os Estados Unidos para pregar em diversas igrejas e que a detenção pelo FBI (a polícia federal norte-americana) ocorreu apenas em razão de um equívoco no preenchimento da declaração aduaneira sobre os valores transportados _em conformidade com a alegação do advogado da família. Não foi esclarecido, entretanto, por que o dinheiro _US$ 56 mil_ precisou ser transportado em malas, Bíblia e porta-CD.

"Na certeza de que nada e ninguém poderá nos afastar do amor de Cristo Jesus, seguimos em frente no propósito de levarmos o Evangelho de paz, cura e salvação a todos que necessitam de uma palavra de esperança, ânimo e força."

No fim da mensagem, há um apelo para que os fiéis não se deixem enganar nem permitam "que roubem a sua motivação." "Continuamos na direção do monte da nossa promessa _o Brasil será o maior país evangélico do mundo."

A assessoria de imprensa da igreja informou que a mesma mensagem foi veiculada na terça-feira pela Rede Gospel, propriedade da entidade, mas que programação não seria alterada em razão da prisão dos líderes.

Segundo uma produtora, o caso "já foi esclarecido".

Ainda no site da igreja, foi noticiado que mais de mil mensagens foram recebidas no dia seguinte à prisão dos fundadores. "É todo o povo de Deus, não só da Renascer, mas de muitas outras denominações se mobilizando mais uma vez e erguendo o grito de: Espada pelo Senhor, pelo apóstolo e pela bispa. Mas uma vez [sic] estamos juntos e mais uma vez vamos vencer."

Apenas mensagens de apoio ao casal podiam ser publicadas no site. Entre os recados, uma fiel disse que tudo não passava de perseguição e que os bispos deveriam ser "deixados em paz" para seguirem "fazendo o bem". Outro freqüentador comparou a situação à perseguição sofrida por profetas do Antigo Testamento. "Assim como Jezabel quiz [sic] calar a voz profética assim eles estão tentando fazer mais uma vez mas eles não vão conseguir".

Outro fiel dizia crer que, ao fim do episódio, o "diabo será desmascarado".

Manifestações de apoio também foram publicadas nas comunidades da igreja ontem no site de relacionamento Orkut.

 



 Escrito por Por Matheus Pichonelli às 18h05
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Perfil

Dom Claudio

Indicado pelo papa Bento 16 para ser o novo prefeito da Congregação para o Clero, o arcebispo de São Paulo, dom Claudio Hummes, ficou conhecido pelo trabalho realizado à frente da diocese de Santo André nos anos 1970, época em que fervilhavam as greves e conflitos liderados por metalúrgicos do Grande ABC.

Próximo dos sindicalistas, abriu as portas das igrejas, ora as de sua própria residência, para acolher o núcleo de dirigentes para a realização de assembléias consideradas ilegais pelo regime militar. Anos mais tarde, alguns desses militantes fundariam o PT. Entre os acolhidos estava o hoje presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Dom Cláudio nasceu em 8 de agosto de 1934 em Montenegro (RS). Ordenado frade franciscano em 1958 em Divinópolis (MG), ocupou durante 21 anos (1975 a 1996) a diocese de Santo André, antes de ser nomeado arcebispo de Fortaleza (CE), onde ficou menos de dois anos.

Na capital cearense, organizou uma campanha de arrecadação de fundos para instalar uma retransmissora da TV católica Rede Vida, incentivou as vocações e participou ativamente da Campanha da Fraternidade de 97, que tratou do problema dos presídios.

Durante esse tempo, porém, a ênfase dada aos movimentos ligados à espiritualidade, como a Renovação Carismática, em detrimento das pastorais sociais e Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), rendeu a dom Cláudio a marca de um arcebispo conservador _imagem contrastante à do líder que apoiou operários e enfrentou polícia e empresários.

A amigos rechaçava a imagem. Dizia que, se assim o fosse, teria conservado a posição que tinha durante as greves do ABC. E argumentava que havia mudado, evoluído.

Indicado em 1998 pelo papa João Paulo 2º ao posto de cardeal-arcebispo de São Paulo, teve como missão substituir dom Paulo Evaristo Arns, expoente dos progressistas e que ocupou o posto por 28 anos.

À época, sua indicação foi vista com surpresa, mas agradou alas progressistas e conservadoras da igreja por ter um perfil moderado e conciliador. A indicação teve influência de um nome conservador, dom Eugênio Salles, arcebispo do Rio, mas recebeu apoio de lideranças como d. Paulo Arns e frei Betto.

Cardeal desde 2001, integrou em Roma dez congregações ou conselhos pontifícios e escreveu três livros.

Considerado um incentivador do papel dos meios de comunicação na tarefa de evangelizar, encontrou à frente de uma das maiores arquicioceses do país a missão de conter a debandada de fiéis para igrejas evangélicas. Para d. Cláudio, a igreja tem que estar presente também fisicamente _daí o esforço para a recuperação da catedral da Sé, ao custo de R$ 5 milhões. "Ele é um ortodoxo bom de mídia", declarou, certa vez, frei Betto.

Rigoroso e meticuloso, d. Cláudio costuma dar a profissionais da área de contabilidade e administração a responsabilidade de cuidar das contas da arquidiocese.

Entre os pontos que defende estão a revisão de normas como a que impede a comunhão de católicos num segundo casamento ou mesmo a do celibato.

Com a mesma naturalidade com que circula entre sindicalistas, dom Cláudio participa de jantares com empresários. Em 2002, foi escolhido por João Paulo 2º para ser orientador dos exercícios espirituais dos cardeais _uma demonstração de que teria trânsito com a cúpula o Vaticano.

Não por acaso, foi um dos nomes mais cotados para assumir o posto máximo do Vaticano, em 2005, após a morte do papa João Paulo 2º.

 



 Escrito por Por Matheus Pichonelli às 15h13
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Reportagem

O debate que decidiu a eleição

 

A ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no debate da TV Globo, a dois dias da votação do primeiro turno, deixou o auxiliar de engenharia Tiago Augusto, 25, convencido de que o candidato à reeleição não merecia seu voto de confiança. Por isso, em 1º de outubro, não vacilou em ir à urna e digitar o número 45, do candidato tucano Geraldo Alckmin.

¦Dias depois, já em meio à disputa da segunda fase da eleição, mudou de lado. Após assistir aos debates na televisão, agora com a presença do candidato petista, repensou a decisão.

¦"Comecei a achar muito arriscado dar uma oportunidade pra quem engavetou mais de 60 CPIs e que poderia privatizar empresas estatais. Esses temas ficaram mais claros nos debates. Vendo o Lula na TV, apresentando dados concretos do que ele fez, comecei a achar que o governo dele não era tão ruim como o Alckmin falava", diz.

¦Assim como Thiago, 12% de eleitores mudariam de lado na disputa do segundo turno e trocaram Alckmin pelo candidato do PT, enquanto 4% tomariam o caminho oposto, segundo dados anteriores ao pleito, divulgados pelo Datafolha. Enquanto especialistas, marqueteiros e políticos envolvidos na campanha tentam explicar a mudança, fui à rua ouvir os eleitores e listou alguns motivos em comum.

¦Para eles, Lula defendeu melhor o seu governo na televisão, enquanto Alckmin exagerou nos ataques e não explicitou o que pretendia fazer pelo país; muitos se disseram receosos quanto à eventual verve privatista do ex-governador paulista _características que os petistas tentaram colar no rival.

¦"Antes votei no Alckmin porque achava que Lula era corrupto e fugiu no primeiro turno. Mas depois ele mostrou firmeza. O Alckmin deveria pegar mais leve com o presidente. Não foi legal o que ele falou. E não me apresentou nada que provasse que seria um governo melhor", diz a atendente Tatiana de Jesus Castro, 30.

¦Já o administrador Ricardo Meyer, 25, eleitor do petista em outras eleições, diz ter votado em Alckmin em 1º de outubro para forçar o segundo turno. Atendida a vontade, decidiu que "tirar o Lula agora seria muito arriscado".

¦Para a operadora de caixa, Luciene Machado, 25, "deu pena de Alckmin" quando teve de enfrentar o petista tete-a-tete.

¦Por isso, mudou de lado. A mudança influenciou a amiga Tatiana Santana de Campos, 21, que trabalha na mesma lanchonete, e agora se diz indecisa. "Não queria mudar, mas achei que o Lula defendeu melhor o governo dele", diz.



 Escrito por Por Matheus Pichonelli às 15h11
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Confissão

 Durante algum tempo, relutei em tomar posição. Mas, se algo de interessante foi proporcionado nestes dias com a ida dos candidatos à Presidência da República para o segundo turno foi o acirramento e, consequentemente, a necessidade de se assumir posturas. Voto em Luiz Inácio Lula da Silva, com restrições. Passou longe de liderar o governo que dele se esperava, mas o asco que a sociedade, especialmente a paulista, guarda por ele é inaceitável. Faz lembrar o que foi o macarthismo nos EUA. Não foi um grande governo, poderia ser melhor. Mas não vou aceitar o discurso de um partido que se declara detentor dos votos ilustrados, enquanto o adversário se apóia na ignorância de um povo cego e com moedas na mão. Isso não é verdade.
 Acho que houve avanços nestes anos. Desconfio que foram obscurecidos por retrocessos que, inegavelmente, ocorreram. Dizer que Bolsa Família é esmola só funciona pra quem nunca precisou.
 O que foi Alckmin para São Paulo? Ele mente quando diz ter limpado as contas do Estado. Deixou um rombo de R$ 1,2 bi e, se não é fosse o Serra (que, restrições à parte, tem um abismo de distância em relação a ele), conseguiria levar até o fim a privatização de 20% das ações da Nossa Caixa (outros 29% o seu Geraldo já fez o favor de dar, a preço de banana, a um grupo espanhol).
 Tem um grupo de aloprados, realmente, que chegou a Brasília em 2002. Atuou como se ainda estivesse no comando do sindicato. Mas os ministérios, como estão montados hoje, sem Dirceu e companhia, me deixam com esperanças de que esse pode ser um governo melhor. Dilma Roussef, Fernando Haddad, Guido Mantega são pessoas sérias e têm um projeto encaminhado.
 Mais. Passei três anos sem que alguém sugerisse vender a Petrobras, a CEF, Banco do Brasil etc. Ninguém precisou vender nada para pagar dívida. Aliás, a relação dívida/PIB melhorou. O brasileiro come melhor. A renda aumentou. Muitos deixaram a pobreza e foram para a classe C. Gente que nunca pôde estudar hoje está na faculdade. Tem programa Brasil Sorridente e Luz para Todos que mudaram a vida de muita gente. O acesso ao crédito também hoje é mais fácil. Por onde Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento) passou, aumentou o comércio com o Brasil. A Polícia Federal desmembrou dezenas de quadrilhas sem precisar dar um tiro.
 Lula errou ao tentar governar um país com o apoio de quem não deveria. Pagou pedágio para ter propostas aprovadas, e isso é inaceitável. Me negaria a votar num presidente que quis criar o Conselho Federal de Jornalismo, mas me desaponto com as opções. Seria ótimo se tivéssemos, no segundo turno, uma opção à esquerda dele.
 Alckmin mente quanto faz discurso social. Ele não tem projeto, passou a campanha berrando, sozinho. Alguém pode dizer algum projeto que ele tenha feito por SP em 12 anos (somado com o governo Covas). O que são as escolas públicas hoje? De que adiantou construir presídios?
 O PT caiu sozinho, e isso não é mérito do tucano. Alckmin representa a farsa do pequeno-burguês: sorriso de bom moço com arrombos de autoritarismo. Em recente encontro com empresários, disse que a solução para a segurança pública era reforçar a dose da repressão. "Vai morrer gente, mas fazer o quê?", disse.
 Ninguém perdeu o juízo a ponto de defender o que aconteceu no governo nos últimos quatro anos. A imagem do grande líder da nação estará para sempre comprometida pelas imagens de Delúbio e Silvio Pereira. Mas não quero retroceder e pedir para voltar ao tempo em que PSDB mandava e desmandava no país. FHC deveria ser banido do país. Cometeu o maior estelionato eleitoral da história ao esconder do país que tinha um acordo com o Tesouro americano para desvalorizar o real assim que reeleito, em 98. E assim o fez. 
 Durante algum tempo, me neguei a assumir minha posição. E me desencantei. Mas sei que aqui se paga um preço caro ao admitir que, sim, acho que o país é ruim com o PT, pior sem ele. Não temos terceira via.
 O que resta é medir forças. E somar dois e dois. O resto é arrogância ou preconceito.
 Conta a História que partido político no Brasil já nasce de uma estrutura burocrática do Estado: são apenas subdivisões de partidos que já estavam no poder. Quando o bolo é mal dividido, forma-se uma nova tendência e cria-se uma nova sigla _liderada por líderes insatisfeitos.
 O PT, por sua vez, era um sonho. Dos trabalhadores, de alas da igreja e dos movimentos sociais. Hoje luta para existir. Enquanto for possível lutar, deve-se somar forças _pode ser difícil, mas é preciso tomar cuidado para não repetir o discurso que se vê nos jornais. Falar por ouvir dizer. Misturar alhos com bugalhos, mensalão com dólares na cueca. Noves fora, darei meu último voto de confiança a quem, acredito, é atualmente o único interlocutor de classes para quem nunca ninguém havia voltado os olhos anteriormente. Isso deve ser levado em conta, gostem ou não as mamães assustadas só fizeram passar os últimos quatro anos antentas aos programas vespertinos da televisão.



 Escrito por Por Matheus Pichonelli às 20h04
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Microconto

E eles não sabem que meu tempo foi outro.

 Escrito por Por Matheus Pichonelli às 21h07
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Resquícios de ficção

Apoiou a perna direita no aro do banco do ônibus. Assim: levantada, a saia
erguida. Que a vissem. Tudo à mostra. Que a desejassem! Que lhe rompessem a
alma! Mas que a notassem, pelo amor de Deus!

O loirinho percebeu. Olha bem para ele - os olhos azuis azuis. Trejeitos
de sem-vergonhice. Deve aprontar algumas, pensou. Na fronte, os cabelos
loiros tocavam as sobrancelhas. Algumas espinhas em volta do rosto. Falava
com a amiga, segurava para ela os cadernos. Irene desiste da revista. Colou
o olhar no menino. Ergueu a perna. Diverte-se: agora o menino está todo
corado, mal se notam as espinhas. De imediato, ela procura alguma
protuberância em suas calças. Sim - está. Será? Malditas calças jeans. O que
ele faz? Cochicha com a menina. Gargalham.

Ela nota. Pouco antes de descerem, fingem não saber de nada. Passam por ela, olham de soslaio, última
vez. Sufocam o riso - Irene percebe. O tempo de colocarem os pés na calçada,
e o disfarce de Irene se apaga num melaço de lápis, choro em pó. Não
dissimula. Os desejos murcharam. Primeiro, ela. Seca. Último homem, um
fracasso. A todo instante deveria umedecer.

Até que os lábios secaram. O contato tornou-se atrito. Doíam. E já lhe iam alguns anos, desde a última
vez. Um tédio mordaz. O calor. Abanava-se com freqüência. E cuspia ao mundo
toda a mágoa do esquecimento.



 Escrito por Por Matheus Pichonelli às 20h14
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Crônica

Pequenas veredas

Tomei em mãos umas latas de tintas e alguns restos de papéis. Com os dedos, lancei-me ao teor da conversa. Rabisquei em módulos vastos a exigência que me ditavam. Conferi, a sério, as últimas gotas de orvalho. Lancei, mais tarde, a roda do mundo. Converti-a em deusa dançante, vistosa e danificada. Fragilizada em cortornos de amplitude e solidão. Essa rosa não presta, contou-me o ocaso.
Mesmo assim, insisti na ilusão. Pincelei as bordas de dobras branquelas, as cores de mares e escuridão.
Conferi em seus olhos os toques famintos. Eram graves seus dias de samba e sertão.
Dos lábios, desceram agrestes. Cientes de mortes, invadiram a terra. Cortaram sinais. Desviados, caçoaram de mim; disseram serem dignas as diginidades somente reinantes. Erraram os errantes? Pois que assim seja.
Antes do esquecimento, a voz se ampliara, confusa, irrequieta. Que fazes enquanto medes o pulso do que não resta?
Meu Deus, eu que mal pude ouvir.
Novamente tilintando. E, surdo, não conferir o discursos silencioso da veia aberta e varada.

-Quieto, João. Essa rosa não presta.



 Escrito por Por Matheus Pichonelli às 18h13
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A quem interessar possa

Não sei ainda exatamente se este espaço algum dia chegou a cativar alguém. Se sim, acho que ando em dívida. Não sou capaz de lembrar qual foi a última vez que postei algo aqui. Como ninguém reclamara, assim o mantive: abandonado.

Sem ter a menor pretensão de ser lido, volto à carga para sanar uma dívida pessoal. Há tempos, não era capaz de passar dois dias sem rabiscar papéis. Alguns chamavam de desenho, caricatura, charge, algo assim.

Não mais que de repente, quando vi, fazia anos sem desenhar. Aos poucos, substituí o ímpeto impressionista de meus passeios vagos por letras. E elas andam me fugindo algo mais do que merecia. Será que, novamente, devo calar? O que fazer em seguida? Tentemos o origami - pois já não sei se é assim que se escreve.



 Escrito por Por Matheus Pichonelli às 17h22
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Crônica

Passar os últimos meses em Araraquara me serviu para sepultar o último suspiro de romantismo que guardava por essa cidade. Os amigos estão de prova o quanto falei dessa espécie de Capitu urbana: uma menina de olhar de cigana, oblíqua e dissimulada. No meio-fio entre o rural e o cosmopolita. E mais parecido com um olhar sem direção exata, pronta para cuspir ao mundo sua cota na mediocridade humana.
A última delas chama-se Vivax, a programação local. Alguém calou quando outro alguém botou na cabeça que era disso o que a cidade precisava: uma brecha na programação na TV fechada para produzir seus próprios programas, com seus próprios produtores, suas próprias gentes, suas próprias idéias. Deixou correr, deu no que deu: um misto de amadorismo, outro de arrogância e outro tanto de pretensão marcaram minhas férias com a imagem do logotipo do canal 21 na cabeça. A cidade, real, com reais problemas, conflitos e cidadãos, ficaram de fora. Entrou em cena o fingimento, um verniz inexistente. E eu não sabia que, por cá, a coisa andava tão feia.
Mas que vale a pena conferir. Há, porém, contra-indicações: quem procura afagar o ego assistindo ao programa para agradecer ao Pai não compartilhar da imbecilidade que se procria em proporções geométricas, pode atirar pela culatra se houver no ato qualquer espelho mais indicativo. Se o individuo é parte ou fruto do espaço e do que este espaço produz, então a consciência corre o risco de ser afetada pelo descuido.
Se o Planeta corre em direção da loucura, Araraquara estará esperando o restante num terreno dominado anteriormente. Um sujeito, gorducho, carente, de riso forçado e língua travada, vai às festas, pega nas mãos os pequenos bambinos da pequena-burguesia araraquarense e bombardeia-os com as mesmas perguntas: “Veio prestigiar a balada?”.
Há, porém, variações sobre o mesmo tema. “Gostando da noite?” “Curtindo a noite”.
A resposta também gira em si, via-de-regra. “Uhuuu”. Ou: “Demais”. Ou: “Podicrê”. “Tô bebaço”. “Catei todas”. A alegria por estar diante da TV.
Fico me perguntando o que fazem, essas jostras, quando amanhece o dia, o álcool se evapora e os perfumes pedem para serem renovados.
Às vezes acho que estou ficando velho. E o pior é imaginar que envelheci sozinho: alguns amigos, de quem guardava em boa conta em minhas memórias, estão lá, com a cara estampada. E pensar que Millôr Fernandes já me avisara que apenas à cretinice humana não há limites. E não é? Um bando de rapazes de barba, ex-estudantezinhos de Progresso, Coeducar, Objetivo e Externato se vestem de idiotas, agem e falam como tal. Até aí, nada de novo, salvo a câmera em mãos e o espaço que o tal Canal 21 lhes concedeu.
Das piadas, me nego a reproduzir. Eu também estou à caça da graça; mataram-na, em Araraquara, a paus, pedras, câmera e ação. O barato é sair às ruas e entrevistar mendigos. Dão a eles o microfone e os seis segundos de liberdade eterna de expressão. Só para mostrar, à pequena-burguesia, como os clowns de Shakespeare são desafortunados: materialmente e sobretudo mentalmente – pela televisão, não é possível conferir o arco da cachaça.
Idéias desconexas acerca de assuntos não definidos. E risadas ao fundo. Curtição. Piração. Como dançar, só de cuecas, numa lanchonete de esfihas. Ou descer uma rua inclinada numa cadeira de rodinhas e se estrupiar às gargalhadas. De longe, é possível avistar as menininhas gargalhando, comentando entre si. “Esses caras são foda”.
A estrela da programação é uma caixa vazia de enjôo. Financiada pelos pais, que acreditam ver nos olhos brilhantes dos filhos – na barba mal aparada também – o nascimento de um talento tardio. São os mesmos que tomam dos pais os carros emprestados e saem cantando alto pelas noites acaloradas e tristemente perdidas.
Não sabe, o Planeta, o que perde em não visitar Araraquara durante as férias.


 Escrito por Por Matheus Pichonelli às 17h52
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Fragmentos

Andando com meu pai pela cidade, notei que as vozes e as cores de prédios e ruas sumiam vagarosamente. Até hoje não sei explicar como nunca fui atropelado, se não olho para o semáforo antes se calcular os passos que me levam até a calçada seguinte. O nome dessa imersão é tédio. Ocorre-me todas as vezes que me tentam tirar do mundo em que vivo para me cobrarem posturas terrenas. Nada mais enfadonho que ouvir, 23 anos após ter pousado no mundo, as normas apregoadas pelos pais sobre como se comportar para triunfar na vida – se não para triunfar, ao menos para evitar a ira predatória dos seus.

***

Eles até tentam: escrevem cartas, mandam e-mails, postam mensagens automáticas, enviam torpedos via celular. A sensação de que a fuga é impossível. Da Motorola, sou cobrado para trocar o software do aparelho – creio ter feito isso há três semanas, como creio ter sido o serviço mal-feito, se o fizeram. Do banco, enchem-me de notas sobre novidades financeiras, serviços que ampliam minha comodidade e dependência de serviços cada vez mais odiosos. O maldito telefone que não me deixa dormir: propostas para comprarem meu apartamento – à venda há cinco anos, ninguém disposto a pagar o quanto vale –, outros perguntando por meu irmão – onde está, com quem, quando volta, se dou o recado –, outros ainda cobrando posições: “quando voltarei ao mundo que deixei há três meses sem dar satisfações?”.

***

Desses, os mais enlouquecedores são os pais dos amigos. Se formou? Aonde? Trabalha? Quanto ganha? O que vai fazer da vida? Sucesso, hein!
Satisfações. Arre: Fernando Pessoa já indicara um dia acabarmos fartos de semideuses. Todos são filhos de conhecidos. Que eu saiba, não almoço ou janto na casa deles. Uns idiotas de olho em crachás que falem por mim. Por que não morrem?

***

Livrar-se do mundo não anda fácil. Não faz muito tempo que descobri: minha estadia na Terra é apenas praxe protocolar. Onde vivo e passo a maior parte de meu tempo não há alimento. Por isso, de vez em quando sou obrigado a pousar os pés em terra firme e olhar as coisas ao meu redor. Só não precisam bombardear desse jeito.
-Filho, você precisa cuidar melhor de seu dinheiro. Todos, na família de sua mãe, são assim. Enrolados...Você não pode ser igual. Temo que seu irmão vá pelo mesmo caminho que seu tio. Como anda seu saldo bancário?
E mais: se sei quanto gastaram comigo só este ano? E nos últimos? Quantas casas poderiam comprar com este investimento?
Que eu saiba, não ando doente.
Ah, se houvesse tempo para optar...

***

O que mais me incomoda é ter de retornar com gente falando ao ouvido. As satisfações logo após o exercício chancela a putaria. Coisa insuportável.

Li, não faz muito tempo, algo interessante sobre Julio Cortázar. Começo a descobri-lo por meio de suas expressões e conclusões acerca da própria literatura: o tiro certo do conto, as formas de narrativa, o vínculo entre História, observação e narração. Realismo fantástico. E a conclusão: de que há momentos em que não se pode mais distinguir o que é vida e o que é literatura. Ler, escrever e viver não são formas de atuação dissociadas. As duas primeiras, contudo, valem mais meu interesse.

***

Há também as músicas. Estas, apenas suportes para carregar as mulas do lado de fora desta tela. Soam bem, pois soam contra a ordem. Captam ruídos e os transformam em harmonia. Hoje mesmo assisti a um vídeo antigo em que Chico Buarque, Tom Jobim, Miúcha e outras três cantoras – delas não me vêm o nome, leigo que sou – cantavam Sabiá. Nas vozes, expressões, preces e apelos – sobre os lugares de origem, árvores e frutas que já não há – vi nitidamente as mãos de Deus, calosas, batendo palmas – Ele feliz por terem, os seus filhos, entendido a mensagem da salvação.

***

E há? Venho pra cá, por exemplo, apenas de quando em quando. Aprendo nomes de árvores, de gestos, pessoas e objetos. Tudo fingimento: é só para enfeitar as histórias, deixá-las verossímeis. Emprestar do mundo suas frugalidades para tentar explorar o que existe por trás disso tudo. Com a licença, Claude Levi-Strauss chamaria de manifestação inconsciente do objeto social. Se não for, é algo próximo. Os ritmos de fora andam matando a pauladas a poesia. É tudo muito barulhento e efêmero: como as rodas de novas canções. Alguém, nalgum dia e lugar, poderá gravar novos Sabiás? Abrir brechas nesse recinto de lama, feito de gente de lama em busca de flores de louros é tarefa cruel. Quem se arriscou, ou se matou ou enlouqueceu. Outros preferiram viver por amor. Estes, os fadados ao fracasso – mas com minha gratidão eterna, pelos séculos e séculos. Amém.

***

Chega a ser surreal. Um homem aparece numa cidade pequena com um bolo de dinheiro e compra a alegria de todos. Bom lote para uma boa história, não fosse ela real. No papel, entretanto, as cores distorcidas são as da humanidade. Do lado de cá, ela não existe – o que sobra dela, é surrealismo. Fluxo de consciência. Romantismo, enfim.

***

Na cidade grande, as mães se comunicam com os filhos pelo MSN. Umas falam com os filhos do Japão – há dois anos, só se vêem pela câmera do computador – qual é mesmo o nome? Deu no jornal. A outra mãe também se cadastrou no serviço de mensagem instantânea. Alega ter sido a única maneira de chamar a atenção do filho. Só mesmo entrando na tela, avisando ser a hora do jantar. Ele no quarto, ela na sala. Muitas vezes, a pachorra: “Não amola, mãe. Estou ocupado”.

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Fico me perguntando o que faz Dalton Trevisan hora dessas. Por isso se esconde? Não se seja por isso. Quando menos se espera, ele aparece: em meio à noite, protegido e à caráter. O vampiro de Curitiba.


 Escrito por Por Matheus Pichonelli às 17h51
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Fragmentos

Andando com meu pai pela rua da cidade, notei que as vozes e as cores de prédios e ruas sumiam vagarosamente. Até hoje não sei explicar como nunca fui atropelado, se não olho para o semáforo antes se calcular os passos que me levam até a calçada seguinte. O nome dessa imersão é tédio. Ocorre-me todas as vezes que me tentam tirar do mundo em que vivo para me cobrarem posturas terrenas. Nada mais enfadonho que ouvir, 23 anos após ter pousado no mundo, as normas apregoadas pelos pais sobre como se comportar para triunfar na vida – se não para triunfar, ao menos para evitar a ira predatória dos seus.

***

Eles até tentam: escrevem cartas, mandam e-mails, postam mensagens automáticas, enviam torpedos via celular. A sensação de que a fuga é impossível. Da Motorola, sou cobrado para trocar o software do aparelho – creio ter feito isso há três semanas, como creio ter sido o serviço mal-feito, se o fizeram. Do banco, enchem-me de notas sobre novidades financeiras, serviços que ampliam minha comodidade e dependência de serviços cada vez mais odiosos. O maldito telefone que não me deixa dormir: propostas para comprarem meu apartamento – à venda há cinco anos, ninguém disposto a pagar o quanto vale –, outros perguntando por meu irmão – onde está, com quem, quando volta, se dou o recado –, outros ainda cobrando posições: “quando voltarei ao mundo que deixei há três meses sem dar satisfações?”.

***

Desses, os mais enlouquecedores são os pais dos amigos. Se formou? Aonde? Trabalha? Quanto ganha? O que vai fazer da vida? Sucesso, hein!
Satisfações. Arre: Fernando Pessoa já indicara um dia acabarmos fartos de semideuses. Todos são filhos de conhecidos. Que eu saiba, não almoço ou janto na casa deles. Uns idiotas de olho em crachás que falem por mim. Por que não morrem?

***

Livrar-se do mundo não anda fácil. Não faz muito tempo que descobri: minha estadia na Terra é apenas praxe protocolar. Onde vivo e passo a maior parte de meu tempo não há alimento. Por isso, de vez em quando sou obrigado a pousar os pés em terra firme e olhar as coisas ao meu redor. Só não precisam bombardear desse jeito.
-Filho, você precisa cuidar melhor de seu dinheiro. Todos, na família de sua mãe, são assim. Enrolados...Você não pode ser igual. Temo que seu irmão vá pelo mesmo caminho que seu tio. Como anda seu saldo bancário?
E mais: se sei quanto gastaram comigo só este ano? E nos últimos? Quantas casas poderiam comprar com este investimento?
Que eu saiba, não ando doente.
Ah, se houvesse tempo para optar...

***

O que mais me incomoda é ter de retornar com gente falando ao ouvido. As satisfações logo após o exercício chancela a putaria. Coisa insuportável.

Li, não faz muito tempo, algo interessante sobre Julio Cortázar. Começo a descobri-lo por meio de suas expressões e conclusões acerca da própria literatura: o tiro certo do conto, as formas de narrativa, o vínculo entre História, observação e narração. Realismo fantástico. E a conclusão: de que há momentos em que não se pode mais distinguir o que é vida e o que é literatura. Ler, escrever e viver não são formas de atuação dissociadas. As duas primeiras, contudo, valem mais meu interesse.

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Há também as músicas. Estas, apenas suportes para carregar as mulas do lado de fora desta tela. Soam bem, pois soam contra a ordem. Captam ruídos e os transformam em harmonia. Hoje mesmo assisti a um vídeo antigo em que Chico Buarque, Tom Jobim, Miúcha e outras três cantoras – delas não me vêm o nome, leigo que sou – cantavam Sabiá. Nas vozes, expressões, preces e apelos – sobre os lugares de origem, árvores e frutas que já não há – vi nitidamente as mãos de Deus, calosas, batendo palmas – Ele feliz por terem, os seus filhos, entendido a mensagem da salvação.

***

E há? Venho pra cá, por exemplo, apenas de quando em quando. Aprendo nomes de árvores, de gestos, pessoas e objetos. Tudo fingimento: é só para enfeitar as histórias, deixá-las verossímeis. Emprestar do mundo suas frugalidades para tentar explorar o que existe por trás disso tudo. Com a licença, Claude Levi-Strauss chamaria de manifestação inconsciente do objeto social. Se não for, é algo próximo. Os ritmos de fora andam matando a pauladas a poesia. É tudo muito barulhento e efêmero: como as rodas de novas canções. Alguém, nalgum dia e lugar, poderá gravar novos Sabiás? Abrir brechas nesse recinto de lama, feito de gente de lama em busca de flores de louros é tarefa cruel. Quem se arriscou, ou se matou ou enlouqueceu. Outros preferiram viver por amor. Estes, os fadados ao fracasso – mas com minha gratidão eterna, pelos séculos e séculos. Amém.

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Chega a ser surreal. Um homem aparece numa cidade pequena com um bolo de dinheiro e compra a alegria de todos. Bom lote para uma boa história, não fosse ela real. No papel, entretanto, as cores distorcidas são as da humanidade. Do lado de cá, ela não existe – o que sobra dela, é surrealismo. Fluxo de consciência. Romantismo, enfim.

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Na cidade grande, as mães se comunicam com os filhos pelo MSN. Umas falam com os filhos do Japão – há dois anos, só se vêem pela câmera do computador – qual é mesmo o nome? Deu no jornal. A outra mãe também se cadastrou no serviço de mensagem instantânea. Alega ter sido a única maneira de chamar a atenção do filho. Só mesmo entrando na tela, avisando ser a hora do jantar. Ele no quarto, ela na sala. Muitas vezes, a pachorra: “Não amola, mãe. Estou ocupado”.

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Fico me perguntando o que faz Dalton Trevisan hora dessas. Por isso se esconde? Não se seja por isso. Quando menos se espera, ele aparece: em meio à noite, protegido e à caráter. O vampiro de Curitiba.


 Escrito por Por Matheus Pichonelli às 17h50
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Ensaio

 

Do desencantamento do mundo

Por Matheus Pichonelli

 

 

Com o protestantismo, a racionalidade da conduta de vida chega à religião. Os feitos humanos, as grandes obras, a autorização para agir sobre a natureza, explorá-la e dela retirar o sustento ganharam o aval do próprio Deus da Bíblia (e também do Corão).

 

Na pequena Thermas de Ibirá, cidade próxima a São José do Rio Preto, interior de São Paulo, não é difícil fazer inimigos. Basta ocupar um cargo de destaque na administração pública local, discutir mais asperamente em mesas de bar, apaixonar-se por quem não deveria ou demitir um funcionário sem justa causa. A querela, então, é resolvida em instancias variadas. Há a Justiça do Trabalho, o tapa, o argumento e a foice. Há, sobretudo, os trabalhos. No bairro de São Benedito ou nos sítios mais afastados, muita gente leva a vida com trabalho. Trata-se de uma espécie de mandiga, macumba, agouro, expressadas das mais variadas formas, do tradicional vudu à exótica amarração de bocas de sapos.
A vítima não precisa, necessariamente, ser algum dos odiados senhores de terra que reinam, soberanos, há décadas no espaço. Pelo contrário. Carlos César Romano, ex-engenheiro da prefeitura local, ganhou fama na cidade por se tratar de uma pessoa bem relacionada e de sorriso fácil. Carlos César vive num pequeno sítio, próximo à rodovia Wahington Luiz, chamado Estância Curumbá.
Certo dia, sua esposa, Susana, resolveu deixar de lamentar os cansaços que lhe incomodavam. Fazia já certo tempo que ela andava acabrunhada, triste, cabisbaixa, irritada; brigava demais com o marido e familiares. É o que, na cidade grande, chamam de depressão; em Thermas de Ibirá, de zica. Ir à Igreja aos domingos não parecia solucionar seus problemas.
Foi aconselhada, então, por meio de sua cunhada, a visitar uma senhora em Araraquara, pouco mais de 150 quilômetros de sua cidade. Dona Emy ganhou fama pela vizinhança e círculos espíritas porque teria o poder de receber o espírito de uma santa portuguesa chamada Maria Bernardete. E se há quem não acredite que espírito tenha lá sua nacionalidade, basta reparar no sotaque exibido por Emy quando as velas de seu cômodo, onde atende os desiludidos, são acesas. A tímida senhora ganha voz pausada e forte. Os visitantes passam a ser tratados como pequerruchos. Pela boca de Emy e espírito da santa, Susana soube que os insucessos na vida pessoal e profissional, dela e do marido, tinham uma razão muito clara: um trabalho executado na porta de entrada do Recanto Curumbá. A santa explicou tratar-se de trabalho forte, de pretensões trágicas e só indicou ser de autoria de uma mulher muito magra, cabelos grossos, armados, onde pente não deslizava. E só.



 Escrito por Por Matheus Pichonelli às 16h31
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Ao saber do destino, Carlos César armou o contra-ataque. O patrão, o empresário colombiano Edgar San Martino, tinha naquela semana, em casa, os três irmãos como visita. Um deles, era feiticeiro. Chamado a visitar o sítio dos Romano, pediu minutos de silencio no bosque e, menos de uma hora depois, trouxe a receita ao proprietário. Para desfazer o feitiço, precisaria de 32 sapos, com bocas amarradas, para serem enterrados numa grande cova a ser construída no pasto. As crianças não poderiam ver; por isso, deveriam passar a noite com os avós. O desfeitiço aconteceria durante a noite e seria cômico, não fosse trágico, o esforço realizado por Carlos César, engenheiro formado pela PUC-Campinas e respeitado senhor de cálculos em sua Thermas de Ibirá, católico apostólico romano – embora, confesse, nem sempre praticante – para coletar o material necessário para quebrar o feitiço. A caça aos sapos correu a tarde toda. Dia seguinte, logo cedo, após o enterro dos sapos, o feiticeiro garantiu: o trabalho havia sido anulado.
Pode parece estranho que em pleno 2005, tempos em que se lançam sondas ao espaço com a mesma facilidade com que se projetam vôos de escala regular, alguém recorra à feitiçaria para se resolver problemas (intra) mundanos. Teoricamente, entretanto – e enfim adentrando à proposta deste artigo –, não haveria nada de irracional na atitude do engenheiro Carlos César. Na ação social desprendida, havia, para Weber, uma referencia a um fim, não a um valor em si: quebrar o feitiço a ele encomendado.



 Escrito por Por Matheus Pichonelli às 16h27
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